5 de dez. de 2011

Olhos de ressaca

Outro dia, enquanto eu voltava da faculdade, eu estava sentada no ônibus e um certo homem entrou. Alto, bem arrumado, pediu licença, contou sua história de vida. Sua filha foi descoberta com leucemia havia 1 ano e ela estava fazendo quimioterapia. Ele contou que havia sido empregado ja fazia 2 semanas como frentista de um posto de gasolina, mas que não tinha dinheiro para alimentar as duas crianças e a mulher naquela noite.

Fiquei comovida, claro, mas o que me chamou atenção foi outra coisa. Do outro lado do ônibus se encontrava sentado um senhor de aparência bem velha, de pele claramente castigada pelo sol, com um saco de frutas trazidos da feira. Esse senhor estendeu ao homem uma moeda de 1 real e disse "É meu filho, só nós conhecemos essa dor, só nós", depois abaixou a cabeça e se calou. Eu quase pude ver o que se passava em sua mente só pela expressão de seus olhos, quase pude sentir a falta de alguém que ele havia perdido e se lembrava com tanta dor. Talvez a fome tivesse levado, ou uma doença, ou os dois juntos. E se eu perguntasse ele provavelmente diria "O tempo cansa minha filha, o tempo cansa". Aquela moeda era na verdade uma forma daquele senhor dizer ao homem para que não desistisse, que a vida também tinha sido difícil pra ele mas ele ainda estava ali. E eu passei o resto do percusso presa aquele olhar distante.

Queria traduzir em palavras o que tinha naqueles olhos, queria ter o poder de fazer a vida dele ser diferente. Mas não tenho. Os olhos continuam triste, a filha daquele homem continua com leucemia, e eu continuo apenas escrevendo.

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